8.2.10

Viagem ao inferno.

Foi ao inferno, ficou idiota e voltou.

Sorrindo com o canto da boca não percebeu a agonia que se abatia sobre o outro pelo medo de perde-lo para o inferno de uma vez por todas. Para nunca mais.

Quando finalmente recuperou a consciência, após a fumaça ter se dissipado por completo, descobriu que a dor do outro fora tamanha que adormecera afogando-se em suas próprias lágrimas. Então no fundo da escuridão com a fumaça voltando a subir, descobriu o verdadeiro passaporte para o inferno. Perder quem temia perdê-lo, era pior que qualquer viagem que já tivesse feito às profundezas de sua inconsciência. Descobrira finalmente a identidade do inferno na ausência de quem lhe queria.

29.1.10

O relógio e a moça banguela

E tinha aquela mulher magrela e sem dentes sentada logo a minha frente na cadeira vermelha de espera com braços pretos olhando com uma cara engraçada pros próprios pulsos, ou melhor para o antebraço que carregava um pequeno relógio dourado, já meio desbotado deixando mostrar acidentalmente aquelas falhas de bijuteria quando velha e mal cuidada.
Ela olhava com um enorme encanto para o tal relógio descascado e sorria com as gengivas para moça ao meu lado até que ela disse algo quase imcompreensível, que após um grande esforço pensando o que ela quis dizer resolvi concluir acreditando que ela havia dito.
- Meu relógio novo, comprei em Birigui.
E sorriu timidamente.
Mas bem no fundo eu não acreditei que ela conhecesse além das fronteiras rondonieses, quanto mais o estado de São Paulo que ficava a mais de três mil quilômetros de onde se encotrava agora. Uma pobre diaba. Tentou puxar assunto mais algumas vezes mas ninguém podia entender o que ela dizia, provavelmente sem os dentes na boca as palavras soam de uma maneira muito diferente, talvez o suficiente para parecer outra língua (além dela nunca conheci alguém que não tinha nenhum dente).
Até que finalmente a moça ao meu lado disse: - Muito bonito seu relógio.
E ela sorriu, e eu desejei ter uma máquina fotográfica pra gravar digitalmente o primeiro e mais bonito sorriso banguela que eu vi na vida. E eu me peguei pensando se todos os sorrisos baguelas eram espontâneos assim. Será que na verdade os dentes são tão exibidos que estragam o sorriso quando tentam amarelá-lo?

Deve ser ruim ser banguela.

E eu também percebi que, espontaneamente, estava pensando maldosamente em que homem iria querer uma mulher como aquela. Com aquele vestido branco de renda, onde as rendas se encontravam mais amareladas que o sorriso de um fumante, rasgada em alguns pontos e remendada em alguns outros. Com os pés sujos sob aqueles chinelos de borracha - também remendados - , e o cabelo tão duro e sujo quanto eu imagino que seja de uma moça do Haiti após um terremoto, e seu cheiro era tão forte que eu não pude distinguir se era compatível à falta de banho e o suor acumulado, ou à falta de escovar os dentes e lavar o cabelo, ou tudo junto - o que seria o mais provavel. Percebi logo em seguida que a pergunta fora respondida, mais maldosamente, quando lembrei-me da característica mais marcante da moça do relógio: Era banguela. Sem nenhum dente, ninguém na defesa... Para alguns homens isso podia ser muito, muito interessante.
Por fim ela pegou sua sacolinha com o celular nokia de lanterninha que uma senhora mais velha - porém mais lúcida e limpa - que a acompanhava comprou pra ela, e foi-se embora abrindo novamente aquele sorriso banguela que parecia realmente sincero.
Dei-me conta então de que talvez ela tivesse uma história incrível com vários namorados, talvez ela seja a rainha do sexo oral no seu bairro.
Ao vê-la caminhando de costas pude analisar como num filme sua vida, e a minha e a de várias pessoas que a gente nem se quer lembra que tem alma. Todos nós temos uma história incrível. E a dela era ser a moça banguela do relógio de Birigui, rainha do sexo oral no seu bairro. Mas eu não pude resumir a minha como a dela. A moça da claro que abandona amores para realizar mudança de ares.

Assim ficou bom!

27.12.09

Há dias em que a gente acorda pra ler, outros para ser lido.
Há muito eu quero ser lida, mas não dou essa chance a ninguém, então eu leio. Hoje acordei decidida a ler, e não li, então acho que é para eu ser lida.
Ao Dileto, a nossa história:
Dos primeiros dias, que marejavam mais os olhos que qualquer ácido, eu posso dizer o quão difícil foram. Tão sonhadora, tanto quanto se pôde ser (e talvez até mais, quando na cama, sonhando - ou não dormindo). Comparando o que se tem o que quer ter (mas se quer porquê não tem?)
Depois de algumas noites de tantos sonhos, já acostumada com a presença noturna aprendi: Era só adormecer e a distância de alguns quarteirões era rompida. Ora próximos demais, sobre a mesma cama, ora em ruas empoeiradas (tudo tem sua referência). E no outro dia, segunda feira. Mãos dadas no ônibus, um caminho tão curto, tornava-se ainda mais rápido, parece que o motorista sabia, dois apaixonados proibidos dividiam o braço de uma poltrona do último assento, corre pra diminuir o tempo do encontro semanal. E quando ainda mais às escondidas encontrava-se com o friozinho na barriga de que enfim seria o grande dia, e nunca - por um motivo ou outro - era. O Grande dia, enfim, só chegou no que foi esperado como a última chance. Depois de tantas situações favoráveis a escolher, a mais desfavorável nos escolheu, fazendo daquele momento um dos mais vivos na memória. Tanto tempo depois, onde tudo parecia adormecido, aparece a vida que se queria ter. Os sonhos se tornaram, enfim, verdade. E eu não precisava mais dormir para encontrar, com os olhos abertos olhando em frente podia vê-lo. No reflexo do espelho, na direção dos olhos, ao alcance das mãos.
Um dos amores mais bonitos que eu já vi fora das artes.
Mas o tempo passou... e o que antes me ardia os olhos agora me faz florecer sorriso, o que antes doía agora admira-me. Com a sensação de satisfação, não de missão cumprido, só de satisfação. E quando pelos dias pego-me na presença de alguém com semelhante aparência só posso sentir um pensamento vagando no ar, saindo de mim. Um pensamento fora do corpo, do tempo e de todas as coisas presentes, como um sopro de coragem, uma injeção de ânimo. Então volta-me a lucidez - como sempre e a vida continua, sempre a mesma.

14.12.09

Da morte.

A perda é definitivamente uma das coisas mais estranhas que podemos lidar.
Especialmente quando ela é perto o suficiente pra desencadear uma série de pensamentos e sentimentos que nunca havíamos sentindo, mas não tão perto a ponto de perder a cabeça. Acreditar que as coisas só acontecem na hora em que devem acontecer sempre fez parte da minha filosofia, mas é difícil engolir o fato quando a tragédia envolve duas jovens de 19 e 20 anos. Parece tão cedo. Nem tão longe, nem tão perto de mim. Na distância suficiente pra sentir; É dificil até mesmo de acreditar, é tão surpreendente.
Diante da situação o sentimento principal é medo. Se aconteceu com elas, pode ser com qualquer um. Não é a morte que me assusta, é a perda, o espaço em branco, a lacuna que aos poucos vai ficando. Quantos amigos nós podemos perder, parentes, família... Quantas pessoas a gente ama e pode a qualquer momento ter a vida ceifada por um acidente ou por qualquer outra coisa?
O corpo de qualquer vida pode de repente estar coberto de margaridas brancas e amarelas sob um véu branco, dentro de um caixão com uma coroa de flores em sua cabeceira. Pode ser com qualquer um, eu, você, seu melhor amigo, teus pais, teu filho ou o amor da sua vida.
Não pense que 'comigo não acontece'. Só é preciso uma coisa pra morrer: Estar vivo. Acredite, pode acontecer com você, e um dia provavelmente acontecerá. Esteja preparado, se dispessa sempre da melhor maneira possível e não esconda seu amor. A dor de uma perda é enorme e inversamente proporcional à distância sentimental que temos da pessoa. Mas no fim das contas eu continuo sentindo medo.

31.10.09

Eu preciso criar!
Sinto necessidade de reencontrar meus talentos em algum beco escuro, ou no primeiro sol da manhã, é onde as fotos ficam melhores. Venham a mim pequenos, sejam meus, permitam-se ser feitos, venham!

Isso é aquele vazio que dá quando você quer saber o que sabia, mas não encontra mais o caminho. É o que chamam de 'perder a mão'.